Visita técnica a Criúva teve encontros incríveis e muita música
Não é nada fácil reunir Gilney Bertussi, Valdir Verona, Boca de Sino e Tio Guri, mas a visita técnica à Criúva fez isso acontecer. Articulações e muito trabalho possibilitaram que a primeira visita técnica de 2026, que marca a retomada do projeto, oferecesse encontros incríveis e muita cultura. Mas vamos começar pelo início.

Financiado pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) de Caxias do Sul, com apoio cultural de Metadados, L. Fomolo, Hotel Blue Tree Towers, Fercien Inovação e Gestão de Ativos, Angeza e Sorvetes Urca, o projeto havia parado em novembro, quando o grupo esteve em Santa Lúcia do Piaí, por conta das férias escolares e as festas de fim de ano. A retomada, em março, não poderia ter sido mais emocionante. O grupo saiu da CIC de Caxias do Sul e foi direto para o Rancho Morro Alto, uma propriedade que trabalha com matrizes e tem foco em sustentabilidade. Fernando Machado contou a história da família, explicou como funciona o trabalho e levou os participantes até o campo para verem um dos seus cachorros border collie conduzindo o gado. Ele também destacou que o fato de, em Criúva, os animais serem criados soltos e pastarem faz com que a carne de lá seja diferente.

Depois de ouvir o empreendedor e entender mais sobre a atividade que é a base de Criúva, chegou o momento de admirar a natureza. O comboio partiu para o Cânion do Palanquinho, que há pouco tempo recebeu um mirante e, em breve, estará ainda mais estruturado para receber visitantes. Guadalupe Pante, da Criúva Operadora, falou sobre os movimentos que foram feitos para que o lugar se tornasse uma Unidade de Conservação e ressaltou que o processo envolveu a comunidade que fica ao redor. Conforme ela, criar uma unidade que se torna uma bolha em meio a outras práticas é uma receita que não dá certo. É preciso envolver os lindeiros para que o projeto obtenha sucesso. Muitas fotos e vídeos depois, os participantes saíram encantados com a beleza do lugar, que passou pelo mesmo processo que deu origem aos famosos cânions do Itaimbezinho e Fortaleza, em Cambará do Sul.

A próxima parada guardava uma surpresa e muita emoção. O músico Valdir Verona, que tem participado das visitas técnicas, dessa vez saiu do carro com a viola na mão. Ele puxou um “oh de casa” em frente à Fazenda Bertussi, a porta se abriu e, de dentro da emblemática casa laranja, saiu Gilney Bertussi, com a gaita nos ombros, tocando e cantando a música mais conhecida dos famosos irmãos. Filho de Adelar, que ao lado do irmão Honeyde levou o nome de Caxias do Sul para muito longe com o grupo Os Irmãos Bertussi, Gilney vem mantendo viva a história da sua família. O grupo ouviu histórias, cantou junto e teve a oportunidade de visitar a casa, que recebe visitantes interessados nessa história cheia de sonoridade e cultura.

O grupo teria ficado por lá muito mais tempo, ouvindo música e fazendo fotos, e só foi convencido a ir embora quando soube que Gilney seguiria junto para o almoço. A parada para a refeição foi no Nosso Galpão, um empreendimento das proprietárias da Criúva Operadora. Claudia Pante foi quem contou a história do lugar, que oferece comida típica e muito acolhimento em meio à natureza. O cardápio contou com arroz mateiro, lingüiça, pão, o famoso queijo artesanal serrano, servido derretido, e suco de uva. A sobremesa foi paçoca na palha, em referência à forma que os tropeiros consumiam. Da época deles também veio o café de chaleira, feito com brasa do fogão à lenha onde foi feito o almoço. Tanta tradição à mesa foi complementada com a visita a uma réplica de uma casa indígena que foi feita na propriedade. No caminho para o próximo destino, o grupo ainda viu a entrada da trilha noturna, oferecida pela Criúva Operadora, e a Casa Verde, onde o negócio começou.

Na próxima parada, novamente foi Guadalupe quem repassou as informações. Dentro da Igreja Matriz de Criúva, os participantes conheceram um pouco da história da construção do templo. Na sequência, quem assumiu as falas foi Jorge de Oliveira Rodrigues, conhecido como Boca de Sino e uma verdadeira lenda da Criúva. Músico e trovador premiado, ele cantou e contou histórias. Primeiro, relembrou tropeadas em que esteve junto com o seu pai e o seu avô, citando que elas costumavam ter entre 20 e 30 mulas de cargas. Depois de citar desafios e alegrias dessa atividade, relatou uma curiosidade. O seu avô costumava recolher paus de madeira que encontrava no caminho, o que lhe rendeu o apelido de Juca Pau. Com esse material, esculpia objetos, exercitando o seu talento para o artesanato em madeira.

Boca de Sino herdou essa habilidade e também fez muitos objetos artesanais. Entre eles, está uma pequena mula que acabou inspirando o monumento que está no acesso a Vila Seca e Criúva na Rota do Sol. Boca de Sino é um personagem fundamental da Festa do Divino, já que foi uma das pessoas que apoiaram o Padre Pedro Rizzon na retomada da celebração, em 1970. Depois de contar como isso aconteceu e explicar como a festa acontece, ele cantou a música de louvação da Festa do Divino ao lado de Gilney Bertussi e Valdir Verona. Boca de Sino é o autor dessa composição e o momento na igreja foi emocionante. Ao final da música, os participantes do grupo tiveram a oportunidade de beijar a bandeira do Divino, cumprindo a tradição.

Mas ainda faltavam as trovas, que renderam tantos prêmios a ele, inclusive fora do Brasil. Ao lado de Tio Guri e novamente ao som da viola de Verona e da gaita de Bertussi, ele mostrou sua criatividade. Em frente à igreja, com o grupo acomodado na escada, eles fizeram trovas e arrancaram aplausos. Foi um momento de diversão e pura celebração à cultura e às tradições. Na sequência, o poeta premiado Sebastião Teixeira Corrêa, mais uma lenda da localidade,leu uma poesia que fez para a candidata de Criúva a rainha da Festa da Uva em 2025, Júlia Luiza Vacchi. A explicação do traje dela, no dia do concurso, foi feita por meio desse lindo poema.

Despedidas feitas, agradecimentos a esse encontro tão especial e chegou o momento de partir para a escola do distrito para entregar o mapa que integra o projeto. Usados no seminário que abriu as atividades, os mapas têm sido deixados nos distritos como um presente, sempre em lugares emblemáticos. A entrega foi registrada em fotos e o grupo seguiu então para a última parada.

O encerramento da visita técnica a Criúva aconteceu com cuca, suco e café no acolhedor Etnias Garden Café. Felizes e sentados à mesa, os participantes ressaltaram o quanto o retorno às visitas aconteceu em meio a uma cultura riquíssima. Foi mais um dia repleto de conhecimento, emoção e trocas afetuosas. O projeto segue em abril, com a visita técnica a Vila Oliva. Até lá!
