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Kerbs

Casas de Kerbs serviam para lazer e fortalecimento dos laços sociais

Distantes da sua terra, dos amigos e de alguns familiares, os imigrantes alemães que se estabeleceram em Nova Palmira buscavam fazer amizade entre eles. E uma das principais maneiras de se conhecerem e se aproximarem eram os bailes. As festas, também chamadas de Kerbs, eram forte na época em que Nova Palmira ia se consolidando e permanecem vivas até hoje em comunidades alemãs espalhadas pelo Rio Grande do Sul.

Um dos espaços que sediava essas divertidas celebrações segue em pé no distrito de Vila Cristina. Na propriedade de Clério Fimm e Nair Ema Potter Fimm, há uma construção de cerca de 200 anos que foi palco de diversas festas. “Os bailes alemães costumavam durar três dias. A cerveja era colocada no porão e coberta com serragem e água para se manter gelada, porque não havia freezer na época", conta ele.

Nos anos em que Nova Palmira se desenvolvia às margens da Estrada Rio Branco, tudo era mais complicado. Mas nem por isso a alegria era deixada de lado. Os Kerbs aconteciam com bastante frequência. Segundo um artigo publicado no site www.ffmodatipicaalema.com.br, o baile de Kerb nasceu no Brasil, criado pelos imigrantes alemães que se estabeleceram por aqui. E o objetivo era criar laços sociais e reafirmar a cultura germânica. No artigo, encontramos também o significado da palavra Kerb. Confira a transcrição.

“De acordo com pesquisas realizadas, a palavra Kerb, empregada aos bailes, compreendia as festas realizadas pelos agricultores nos períodos de colheitas. Todavia, também tem a conotação de festas de igreja, conhecidas no Brasil como quermesse. Tanto que muitos a identificam automaticamente com as festas das igrejas nas pequenas localidades.”

Há dados sobre essas festas também no artigo acadêmico Lazer e colonização: confluências, publicado na revista da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ele refere-se à cidade de Marechal Cândido Rondon, mas nos oferece informações valiosas por se tratar da mesma cultura, já que analisa as narrativas de descendentes de imigrantes alemães procedentes de antigos núcleos coloniais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Nova Palmira se encaixa nesse cenário. A autora, Neiva Salete Maccari, escreve que os migrantes não haviam voltado as suas preocupações apenas aos bens materiais, pois havia uma vida social significativa.

“Eram realizados frequentemente bailes que iniciavam por volta das 19 horas, sem um horário pré-fixado para seu término, pois enquanto houvesse pessoas bailando, o conjunto musical não deixava de’animar’. Esses bailes eram os acontecimentos mais marcantes da comunidade e, geralmente, eram realizados em datas significativas, sendo que essas datas mais significativas estavam ligadas à questão religiosa. Portanto, não surpreende o fato de quem as festas mais esperadas e mais comemoradas fossem o Baile de Natal, da Passagem do Ano, da Páscoa, do Carnaval, da Kerbfest, além dos almoços festivos realizados no espaço da igreja. Todas essas festividades eram sempre antecedidas de atos religiosos.” MACCARI, Neiva Salete, no artigo Lazer e colonização: confluências.

Em ambas as referências usadas para esse texto, aparece a farta gastronomia como algo importante em um Kerb. Os alemães costumavam consumir a sua gastronomia típica, incluindo a “cuca com linguiça” e tomar cerveja. Para embalar a festa, é claro, as bandinhas alemãs que conhecemos até hoje. Porém, as celebrações não ficavam restritas às celebrações religiosas. Elas aconteciam também nas casas das famílias, com serões e carteados, afirma Neiva no seu texto. As festas de casamento também eram grandiosas.

Com essa disposição para o convívio social, as casas de Kerbs tinham bastante importância e se espalhavam por diversos lugares. Elas eram, também, uma oportunidade de as mulheres se divertirem, já que frequentar os bares, segundo o artigo Lazer e colonização: confluências, era uma atividade restrita aos homens, assim como fumar e dirigir. Essas atitudes não eram comuns às mulheres. Neiva ressalta ainda que, aos Kerbs, elas sempre deviam comparecer acompanhadas da família, porque caso um namoro se iniciasse ali, devia ser sob o olhar dos pais ou de irmãos mais velhos.

Houve muitas mudanças de lá até hoje, obviamente, e nas entrevistas para o artigo, Neiva percebeu que a tradição se perdeu em diversos lugares. Um dos locais em que ainda acontece, porém, é aqui no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Um dos exemplos da transformação pela qual a Kerbfest passou é a realização da Oktoberfest, em Blumenau e Santa Cruz do Sul. Veja o que a autora escreve sobre isso.

“Os relatos nos dão uma dimensão das transformações pelas quais a comunidade passou, pois em vários deles encontramos expressões como estas: “naquele tempo era bom”; “acabou”; “isso não volta mais”; “como era bonito”; “que pena”. Essas expressões geralmente são acompanhadas de um sentimento nostálgico, pois esses agentes históricos percebem como essas transformações afetaram seus valores culturais: ao invés de Kerbfest, a Oktoberfest, festa do chopp; as comidas típicas, como a cuca e a linguiça, hoje são acrescidas de pratos como eisbein (joelho de porco), kassler (lombo de porco), sauerkraut (repolho curtido em salmora, também conhecido como chucrute) que, apesar de caracterizarem-se como tipicamente alemãs, não faziam parte das festas daquele tempo. É perceptível, a partir dos relatos, que “os velhos, como documentos vivos da história, dão-nos uma dimensão da mudança” e estes são sinais das transformações, pois, para os outrora migrantes, “os tempos mudaram””.